O segundo a participar da série de entrevistas com candidatos à presidência do Fluminense F.C. é Peter Siemsen, candidato da coligação Novo Fluminense. O advogado, que nos solicitou que enfatizássemos que Tote Menezes não será vice-presidente em sua gestão, nos recebeu em seu escritório para uma conversa sobre seus projetos para o Fluminense F.C.
Fluminense & Etc: Candidato, como o senhor pretende renegociar a dívida com credores? Que receitas pretende gerar, que gastos pretende gastar, como pretende gerar superávit?
Peter Siemsen: Eu acho que a dívida do Fluminense é o cerne da questão. Se o clube enfrenta problemas administrativos de toda ordem, de salários atrasados aos ladrilhos quebrados na piscina, é decorrência da má administração na parte financeira. Porque isso é o coração do clube. Você não consegue atender a demandas tão heterogenias como o futebol, a torcida, o sócio que procura atividades, se não atacar o problema da dívida.
Nos últimos anos, a dívida do Fluminense vem numa crescente muito grande. Apesar de contar hoje com o maior patrocinador individual do futebol brasileiro, o Fluminense gasta todos os recursos direto com atletas e comissão técnica para formar um elenco de ponta e não consegue, em paralelo a isso, focar em equacionar sua dívida, aumentar receitas, reduzir gastos e criar um ambiente favorável a credibilidade para atrair parceiros para modernizar e ampliar sua infra-estrutura.
As vendas de Maicon e Wellington Silva foram marcadas por servirem ao propósito de pagar salários atrasados, Cedae, é atraso de tudo. O Fluminense é muito mal administrado e o fato de ser mal administrado trás desvantagens enormes. A dívida do ano passado fechou no balanço em 320 milhões. É a maior do futebol brasileiro hoje. Essa dívida é composta por cerca de 50% na área fiscal, atrelada ao Timemania, o que nos dá uma certa tranqüilidade com relação a ela. Os outros 50% são divididos em 80% dela trabalhista, e o restante cível. É uma composição de dívida muito difícil.
A dívida trabalhista é a mais difícil de ser administrada hoje, porque são diversos focos de penhora e execução. Em decorrência dessa composição, o Fluminense, na área fiscal, além de existir a dívida, continua não recolhendo nenhum tipo de contribuição social, fundo de garantia. Não paga o corrente.
Em relação a dívida trabalhista, para evitar penhoras, o clube faz acordos. Durante um determinado período, o Fluminense fez sessenta e dois acordos. Desses 62 acordos, trinta já voltaram como execução. O que significa isso? Quando o Fluminense compôs a dívida com esses credores, o fez no sentido de diminuir o valor original e parcelar o índice de correção. Só que não cumpriu com o pagamento. Com isso, além de voltarem essas ações, o Fluminense incorreu ainda numa multa de 70%, ou seja, além de não pagar a dívida que já existia, criou dívidas novas.
Fluminense & Etc: Isso significaria dizer que o clube estaria, dentro de um médio prazo, inviabilizado financeiramente? Porque tem alguns dados alarmantes. O Fluminense, nos exercícios de 2008/2009, teve um déficit contábil acumulado de cerca de 70 milhões. A continuar dessa forma nós estaríamos inviabilizados…
Peter Siemsen: O que me chamou a atenção nesses últimos anos foi a mudança do balanço de 2006 para 2007. Esconderam o tamanho da dívida trabalhista e cível do clube. Passada a eleição, foi feita a correção do balanço. E aí nós tivemos um resultado negativo, acho que de cento e tantos milhões, que, na verdade, foi uma correção ( reconhecimento ) do que já existia. Acabou que o Fluminense saiu de uma posição irreal no ranking dos mais endividados, para o topo. E acredito que numa auditoria séria a situação tende a piorar. Porque você pode acrescentar aí o adiantamento de receitas futuras, novas dívidas que foram criadas e o corrente que não foi recolhido esse ano.
A real situação é que as questões de balanço prejudicam muito o Fluminense, que, acho que em 2006, resolveu tornar seu balanço azul. Fez uma reavaliação da sua propriedade imobiliária, no sentido de atualizar o valor do patrimônio do clube para mais de 300 milhões. Com a manobra, comparando dívida e patrimônio, nós ficamos no azul.
A questão é: será que Laranjeiras vale trezentos e poucos milhões?
A segunda pergunta: será que valeu a pena, já que você hoje tem uma situação em que há uma taxa de depreciação do ativo de 10% anualmente? Isso significa que temos, todo ano, um negativo de 30 milhões em função da alta valorização. E sai o resultado distorcido no balanço. Esses gatilhos nunca vão resolver o problema.
Como se resolve o problema? Equacionando a dívida. Nós temos vários caminhos para fazê-lo. Um deles é aumentar a receita. Nós temos uma gestão muito ruim, principalmente na área de Marketing. Hoje o Fluminense, na área do Marketing, só recebe receitas ordinárias. Ele não faz ações de Marketing que resultem em novas receitas.
Fluminense & Etc: O senhor teria projetos na área de Marketing, especificamente na questão do licenciamento? Nós temos um mercado consumidor com perfil de fidelidade e mais de 50% está nas classes de consumo A e B. Há nichos dentro do próprio mercado de torcedores do Fluminense que tem demandas reprimidas. O público feminino é um caso.
Peter Siemsen: Bom. Primeiro você vai ter que remodelar a forma como trata o licenciamento. Eu não acho que, num primeiro momento, o licenciamento vai causar um aumento de receita significativo. Hoje o Fluminense licencia toda e qualquer pessoa que bate na porta e oferece um contrato, mas não tem mecanismos para fiscalizar quanto de produtos é vendido. Então, sempre recebe pela taxa mínima de contrato, o que leva o mercado a crer que a marca Fluminense não vende bem. Isso cria uma imagem difícil de ser revertida no primeiro dia.
Então a gente precisa remodelar, enquadrar, como você atinge o real público consumidor do Fluminense. Porque, com esse tipo de produto que o Fluminense licencia hoje, você não vai atingir as classes A e B. O que, por exemplo, atingiria esse segmento? Se você cria uma linha infantil, com vários modelos, certamente bem trabalhados junto à torcida, é um produto caro, os produtos da Adidas são de alta qualidade, mas que vende bem. Já um chaveirinho, é muito mais difícil. Que tipo de chaveiro a classe A e B compra? Será que o mesmo que as outras classes? A gente tem que examinar que tipo de produto a gente quer colocar no mercado, que produto queremos licenciar. Para isso, temos que pegar o público e saber usar a ferramenta Internet do Fluminense. Vamos pegar um banco de dados do potencial comprador tricolor, do consumidor fidelizado pela marca. Quando a gente conseguir usar a Internet com essa finalidade de construir um banco de dados bem identificado, nós poderemos realizar diversas ações de Marketing, não só no licenciamento direto de produtos, como serviços, trabalhando com empresas de telefonia celular, com eventos, cartões de vantagens, como hoje você tem o passaporte tricolor…
Há muitas possibilidades de se trabalhar. O Fluminense tem que ir muito além na área do Marketing. Tem que trabalhar o evento jogo. O jogo tem um potencial de ganhos muito grande, seja de ações na área corporativa, seja negociando a relação com o estádio para que o clube participe na área do camarote, na alimentação, no estacionamento e que possa realizar promoções que tragam o torcedor para o estádio.
Vou dar um exemplo. Ontem o Fluminense deu um exemplo de Marketing negativo num jogo que passou para a TV aberta ( Fluminense x Coríntians, em 15/09 ). Um jogo que o Fluminense tem que levar imagem de clube forte. Forte de torcida, de paixão e de organização. Então você não pode deixar acontecer o que aconteceu ontem. A torcida toda no andar superior, aonde a televisão não filma. E onde a televisão filma, estava vazio. Então você passa para o Brasil inteiro a imagem de que o Fluminense não tem torcida. Isso é uma ação negativa de Marketing que para você recuperar o valor perdido, demora muito tempo.
Por isso eu sou candidato, porque com a atual gestão ou a outra candidatura, nada disso vai acontecer.
Fluminense & Etc: O senhor vai procurar um profissional de Marketing no mercado? Qual a função? Terá uma vice-presidência? Aproveitando esse gancho, como o senhor pretende compor seu staff? Quais serão as vice-presidências e como funcionarão?
Peter Siemsen: O Markerting precisa de uma pessoa trabalhando com o todo. Mas vamos precisar de alguns parceiros em algumas áreas. Por exemplo, na questão jogo, a idéia é realizar uma parceria com o Flamengo para o novo Maracanã, buscar uma relação onde Fluminense e Flamengo sejam proprietários dos seus jogos. O ideal seria termos um parceiro que administrasse o Maracanã, mas a gente sabe que o Maracanã, hoje, é um braço político. Então, talvez a gente não consiga uma concessão. Se não é possível a concessão, a gente tem que trabalhar com a propriedade do evento. Não dá mais para o Fluminense ter hoje no uso do Maracanã, o estádio mais caro do mundo. Para jogar no Maracanã, o Fluminense recebe 48% da renda líquida.
Seja lá como se compõe esses outros 52%, não é viável. Quem no mundo paga por um estádio 52% da receita que gera, fora a alimentação e estacionamento, entre outros, que o clube não recebe nada? Esse é um conceito totalmente antiquado e desatualizado do que é o valor comercial do estádio de futebol.
Nós estamos falando de um dos eventos, o futebol, de maior valor comercial do mundo. Então não podem Flamengo e Fluminense receber 48%.
Tudo isso envolve Marketing / Comercial.
Em jogo nós temos que trabalhar com um parceiro fora do Fluminense, que tenha expertise nessa área, fazendo o planejamento conosco.
Licenciamento idem. Hoje temos várias empresas especializadas que trabalham com personagens do mundo do entretenimento, imagem de celebridades. Quer dizer, por que o Fluminense não pode dar o mesmo tipo de tratamento profissional? A idéia é ter dentro do departamento de Marketing do Fluminense, um profissional bem remunerado e disputado no mercado. Com nível de remuneração do mercado corporativo brasileiro na área de Marketing.
Fora isso, nós queremos uma pessoa que conheça profundamente a história do Fluminense, que tenha raízes no clube, que conheça tudo do mesmo. Esse profissional será importante pra dar suporte nas ações de Marketing. Um profissional sem envolvimento com o clube não terá essa sensibilidade.
O Fluminense precisa entrar na área social. São áreas fundamentais que o Fluminense não trabalha. Precisamos ter uma pessoa dedicada para desenvolver um projeto social de formação de pessoas através do esporte, baseada em valores de respeito, caráter e comprometimento. O atleta, o torcedor tem que ir para a sociedade e mostrar o valor que o Fluminense tem. Isso também é Marketing.
Temos que usar o Marketing então, para agregar receitas diretas, indiretas e também agregar valor aos ativos do clube.
Com relação a staff, diretoria, nós estamos em fase de formação. Já temos alguns nomes para algumas áreas. Já temos um trabalho de reestruturação do modelo, aonde a gente vai manter algumas vice-presidências típicas de clube, que é normal, e vamos estruturar um comitê de trabalho, que será um comitê de dia a dia, que precisa se falar. Hoje o Fluminense não se comunica. Cada área defende sua própria receita, foge do caixa único e tenta trabalhar no que dá e no que tem. Temos que reformular tudo isso. Temos que fazer uma auditoria, reavaliar toda a situação financeira do clube, todas as suas áreas, criar orçamentos pra cada área e um fluxo administrativo contínuo, com reuniões periódicas, semanais. Mas não é reunião do conselho diretor, como é feita hoje, onde se discute 98% futebol e 2% o resto. Claro que teremos a reunião semanal do conselho diretor, que é política e importante dentro de um clube.
Eu queria voltar à questão do equacionamento da dívida, que é o fundamento principal. Equacionar as dívidas é possível. Não é propor projetos mirabolantes. É loucura achar que o mercado compra o Fluminense, ou que os credores trocarão as dívidas por ações do clube. Não há a menor possibilidade disso acontecer. Futebol tem um valor crescente de mercado.
A curva de crescimento do valor comercial do futebol brasileiro, principalmente na primeira divisão, cresceu demais nos últimos anos e tende a continuar crescendo. Com a internacionalização, ela tende a dobrar no futuro. Se o clube continuar nesse caminho, a receita tem condições de aumentar muito em relação ao serviço da dívida e às despesas, dando condições de gerar um superávit futuro, que nos dê condições de gerar um fluxo de pagamento da dívida.
Melhor do que isso, a gente tem condições de trabalhar com as receitas ordinárias do clube.
Em Xerém, no balancete do clube, ano passado, existe um custo de R$5,9 milhões. Quem vai a Xerém percebe: como o Fluminense gastou 5,9 milhões, se falta lençol, se os jornalistas estão proibidos de visitar os dormitórios e os vestiários? Xerém está abandonada na questão de estrutura. Não é na questão humana. As pessoas estão lá, estão tentando trabalhar. Mas a estrutura está abandonada. Aí você começa a se questionar sobre a capacidade de gestão dos recursos, porque é muito dinheiro para pouco resultado em termos de manutenção e infraestrutura. Se nós olharmos o custo do futebol do Fluminense, ele é muito alto em comparação com o resto do mercado se você incluir o valor de investimento da Unimed, que saiu na Veja recentemente.
A questão é: o Fluminense gasta muito, gasta mal e não constrói nada. Temos toda a possibilidade de reduzir o custo do clube, de aumentar a receita e usar a receita extraordinária, como venda de atletas, para abater a dívida, por exemplo, fazendo novos acordos na área trabalhista e voltar a trabalhar com o tribunal regional do trabalho no ato trabalhista que o Fluminense perdeu por não cumprir as obrigações, não pagar devidamente, enquanto Flamengo e Botafogo ainda tem o benefício, porque respeitaram as regras do jogo. Já o Fluminense deu um péssimo exemplo de governança e de falta de comprometimento.
A dívida fiscal vamos trabalhar de forma coletiva. Todos os clubes estão com esse problema. Não adianta dizer que o Fluminense vai resolver. Quem vai resolver é o trabalho coletivo de todos os clubes. O que não pode acontecer, é deixar de pagar o corrente.
Quando o Fluminense tiver valor e credibilidade, podemos então trabalhar seus ativos no mercado por um valor que merece. Se eu troco o valor de uma empresa ( o Fluminense ) pelo que vale hoje, eu vou vender muito barato. Não é essa a nossa idéia.
Fluminense & Etc: Sobre Xerém, o senhor deu uma entrevista ao João Marcelo Garcez, do Globoesporte.com, na qual apresentou uma proposta de algo parecido com o Fluminense ter uma empresa que fosse administrar a formação e a carreira dos atletas da base, até mesmo substituindo o papel do empresário. Não existe nenhum obstáculo no estatuto à adoção dessa solução?
Peter Siemsen: O estatuto diz que se o Fluminense criar uma S/A, ele tem que deter 51% dela. Primeiro que uma empresa dessa não seria uma S/A e sim uma Ltda. E o propósito é ocuparmos, não o lugar do empresário, em si, é ir muito além dele. É ocupar uma ausência completa no Fluminense hoje que é planejar a carreira do atleta, construir a carreira junto dele, dar assistência à família, quando essa tiver dificuldades financeiras, para que possa melhorar a vida dele e despreocupá-lo quanto a esse lado e avaliar condições técnicas de atletas que estejam em outras praças do Brasil e fora, para que possam integrar as divisões de base do Fluminense e que possa trabalhar também a área comercial.
A idéia é criar um fundo dedicado de investimento em atletas. Ou seja, você ter grupos de atletas que parte dos direitos econômicos pertença a um fundo dedicado onde os investidores compram quotas.
A idéia não substituiria todos os empresários. Ela entra onde o empresário não estiver ocupando, se tornando parceira de atletas que sejam promissores, a fim de trabalhar comercialmente a relação do atleta com o clube. Temos que evitar também o que acontece hoje, quando os atletas muito promissores têm empresários fortes no mercado. O que acontece? Quando ele vem assinar, aos 16 anos, o primeiro contrato com o Fluminense, o empresário já exige parte dos direitos econômicos. Assim o clube fica numa situação difícil, porque os atletas que tem menos valor como promessa, ficam 100% com o Fluminense, já os outros passam a serem fatiados com os empresários.
Não adianta eu dizer que está errado, porque esse é o mercado. O que nós temos que fazer é substituir essa situação. Como? Quem quiser entrar em sociedade com atletas promissores, que estão com a agência, terão que adquirir quotas, onde nós vamos dividir o risco. Vamos colocar uma cesta de atletas variada, em que o risco seja dividido com o investidor, que hoje só investe nas promessas. Em vez de fatiar 40 a 50%, como tenho visto hoje, vamos fatiar cinco ou seis atletas dando 15%.
Eu acho que essa agência vem com muito mais que isso. Ela vem com o projeto de aproveitar em outras praças os atletas que não forem aproveitados no Fluminense. Exemplos: leste europeu, a Austrália, que hoje vem desenvolvendo o futebol crescente, que pode absorver mão-de-obra e a América do Norte. O Fluminense pode emprestar, participar na cláusula penal, cláusula econômica futura deles. Com isso podemos arrecadar mais com Xerém e investir mais também.
Hoje pensamos tanto em Xerém como o futuro do Fluminense, que a idéia é, num primeiro momento, Xerém ser tratado como projeto estratégico da presidência, de forma que receba toda a atenção necessária por ser o futuro do Fluminense.
Fluminense & Etc: O senhor, caso eleito, será o presidente que finalmente construirá o nosso C.T.? Há viabilidade de ir para Xerém?
Peter Siemsen: O Fluminense tem uma área cedida pela prefeitura, assim como o hotel, mas é uma área que não pertence ao Fluminense e está sujeita a questões contratuais e políticas. Nós não podemos fazer um investimento de 20 a 30 milhões num C.T, estando sujeito a essas variáveis e riscos.
Prefiro construir uma escola em Xerém para atender jogadores e à região. Desenvolver o projeto social do Fluminense lá.
Já o futebol profissional, nós estamos estruturando um modelo para construir o C.T. do Fluminense, que é uma necessidade imediata, eu converso muito isso com o Celso ( Celso Barros ), porque ele se ressente muito da atividade do clube, porque o Fluminense não constrói nada. A Unimed paga tudo hoje. Quando você vai fazer transferência de atleta, tem o percentual de 1% do atleta. O Fluminense nunca tem dinheiro. Além de contratar o jogador, a Unimed tem que pagar a taxa de transferência.
Estamos discutindo isso e a primeira emergência que o Fluminense tem hoje é o C.T. Temos uma estrutura para atletas profissionais muito aquém do que demanda o mercado. Isso é muito ruim, primeiro porque fica mais caro trazer o atleta para o elenco do Fluminense. Segundo porque o atleta não quer ficar muito tempo no Fluminense, a não ser por uma remuneração muito alta, terceiro, porque acaba machucando os atletas, como a gente tem visto que vem acontecendo constantemente.
É emergencial atacar o problema. Nós estamos criando um projeto de fundo imobiliário, atrelando o investimento a um fundo de pensão. Nesse modelo, o fundo de pensão fica proprietário das quotas do fundo imobiliário, que é proprietário do terreno e da construção a ser feita. A idéia é captar cerca de R$20milhões, comprar o terreno de 50.000 metros quadrados e o restante iniciar a construção do C.T.
A idéia é trabalhar em três etapas. A dois e três a gente trabalha com projetos incentivados, baseados hoje na lei do esporte. Assim teríamos um C.T. de alto nível, classe A, compatível com o nível de investimento que é feito no futebol do clube. Isso é absolutamente viável.
Durante o período que o ativo fosse propriedade do fundo de pensão, o Fluminense teria que arrendar o C.T., até que pudesse resgatar as quotas e se tornar proprietário.
Fluminense & Etc: Candidato, é possível conciliar um projeto de saneamento das finanças com títulos no futebol? A pergunta é porque hoje nós temos o elenco mais caro do país. Em compensação, nós temos balanço negativo. O que nós precisamos fazer para equacionar essas duas questões. E quantos e quais títulos o senhor pretende conquistar?
Peter Siemsen: A primeira pergunta, eu tenho certeza que vai acontecer. Primeiro, nós temos o maior patrocinador individual, investindo direto no elenco e na comissão técnica. Isso significa que podemos ter o melhor elenco do Brasil pelo valor que a gente investe. Com isso temos condições de elevar o nosso faturamento, seja através de estádios lotados, seja ações de Marketing, aumento do valor de participação do torcedor, do sócio e aumentar o ticket médio de gastos. Acho que o Fluminense tem toda condição de amanhã participar de torneios preparatórios, jogar em outras praças, com alto interesse da região de tricolores e simples amantes do futebol. Temos condições de participar de uma Libertadores com o elenco que temos e toda condição de, com esse investimento feito no futebol profissional, potencializar enormemente as suas receitas, que, conseqüentemente, serão direcionadas para o equacionamento das dívidas, sobretudo por uma gestão muito austera do ponto de vista administrativo. Cada real tem que ser tratado como único.
Temos que tratar também o clube, que é alheio à unidade de negócio futebol, porque com isso podemos fazer um programa como o do Internacional de associação em massa do torcedor, com várias modalidades, para que possamos atingir um patamar de 40 mil sócios no mínimo, sempre, e não só quando o clube está bem.
Fluminense & Etc: Isso inclui direito a voto?
Peter Siemsen: Aí depende de quanto você vai pagar. Ele tem que participar com um investimento que seja uma contrapartida equilibrada do direito a voto, que tem um valor enorme na cidadania e democracia do Fluminense. O sócio é dono do Fluminense, o torcedor é cliente. O ideal é que o nosso torcedor também seja dono.
É óbvio que vamos trabalhar para que o torcedor opte pelo modelo mais caro, porque significa que ele está acreditando no clube, que ele quer freqüentar, que ele quer ir aos jogos e que ama o clube, que o respeita.
O Inter, no ano passado, tinha receita de oito milhões de patrocínio do Banrisul. Só que o faturamento do Inter é muito próximo do faturamento do Coríntians, que é o maior do Brasil. Só chegou a esse patamar, por causa da boa gestão e da parceria que fez com a torcida, transformando-a em sócia.
É um clube que, hoje, sabe trabalhar o Marketing como ninguém no Brasil. Temos que dar os parabéns e procurar no Inter os exemplos.
Eu acredito muito na internacionalização do futebol brasileiro. Tem Ronaldo, Roberto Carlos, Neymar ficando, Deco vindo. Está na hora de o Fluminense acordar. Não é a Unimed. A Unimed já sabe, já conhece, já contrata. Está faltando o Fluminense virar esse jogo.
Fluminense & Etc: Sobre a Unimed, seria o caso de a mesma assumir 100% do custo do futebol profissional, até trabalhando em cima do conceito de unidade de negócio?
Peter Siemsen: Não, a idéia é tornar a coisa mais profissional possível. Vamos planejar o ano. O Fluminense vai gastar no ano, em 13 meses ( incluindo o décimo terceiro ), X milhões. Ponto. É o orçamento. Não vou sair dele. Claro, qualquer empresa tem situações de emergência. Sempre tem que estar preparado. Mas você vai ter que seguir o orçamento. Plano de emergência é plano de emergência. Não é para ter emergência todo mês. Vamos planejar qual é o investimento nosso e dela. E eu acho que é muito correto o modelo. O modelo Fluminense x Unimed, apesar das críticas dos outros candidatos, dizendo que o dinheiro tem que ser administrado pelo clube, é correto.
Vendo o Fluminense administrar o dinheiro dele hoje, se a Unimed não participa, eu fico de cabelo em pé. Eu acho que a gente tem que provar primeiro a nossa capacidade de administrar antes de criticar qualquer coisa. Contamos com um belíssimo parceiro e agora precisamos provar que o Fluminense tem criatividade, sabe inovar, sabe aproveitar as ondas do mercado, sabe valorizar a torcida, sabe gerar valor direto e indireto… então, quando a gente achar que a gente sabe, pode sentar com a Unimed para propor um novo tipo de planejamento.
Planejamento, aliás, é coisa muito importante no futebol. Consiste em orçamento, ações de Marketing em conjunto. Nós temos que valorizar o nosso parceiro. Marketing tem que ser pensado conjuntamente. Hoje o Marketing do Fluminense não fala com a Unimed. Hoje Xerém não conversa com a Unimed. Acho que está na hora de todo mundo participar e planejar junto. A idéia é a gente montar a melhor equipe possível.
Na compra do direito de imagem, quando a Unimed compra a imagem de um jogador como Fred, como Deco, ela está comprando o valor comercial que o jogador tem. Quando o Fluminense faz o contrato de trabalho, ele está comprando os direitos sobre a capacidade esportiva dele. Tem jogadores que são ótimos esportivamente, mas não construíram nenhum fundo de comércio ainda. Então eles não vendem nada. Não adianta você querer fazer uma campanha da TIM, uma campanha da CLARO, ou de qualquer empresa com um jogador desconhecido, com alta capacidade de rendimento hoje. O Maicon estava jogando muito, mas você acha que o Maicon conseguiria um contrato para fazer uma campanha de publicidade de uma grande empresa? É um modelo que o Coríntians já adota com Ronaldo, o Santos com Neymar e o Fluminense adota pelo patrocinador, porque o Fluminense, ele não sabe nem lidar com esse modelo. Para que então quer o dinheiro dentro do Fluminense? Se você não sabe nem fazer o seu, se você gera dívida em cima do que não existia, por falta de compromisso, se você deixa de pagar R$1.000,00 para um funcionário que tem que pagar aluguel, se deixa de fazer tanta coisa por mediocridade, má vontade… Com decisões forjadas no âmbito político e não no âmbito técnico.
As decisões deveriam ser todas balizadas no âmbito técnico. E isso é um compromisso, pode gravar. As decisões a partir de dezembro serão tomadas no âmbito técnico. Acabou política. Não tem mais conversa no Fluminense.
Claro que dá para trabalhar muito bem com a Unimed. A idéia é que eles comprem o direito de imagem da maioria dos atletas do Fluminense, mas que o Fluminense pague em dia também, mostre que é um bom parceiro. O Fluminense não está em dia porque as pessoas são muito ruins, não os funcionários, mas a diretoria.
Fluminense & Etc: O título mais importante do Fluminense, que, na verdade, é uma condecoração, é a Taça Olímpica, que foi conquistada em 1949, entre outras razões pela enorme quantidade de títulos que conquistava nas modalidades olímpicas, o que hoje não ocorre. Pelo menos não com a mesma intensidade. O senhor tem algum projeto para resgatar isso para o clube? Como os jogos olímpicos de 2016 podem se inserir nisso?
Peter Siemsen: Esse é um assunto importante. Dois terços do espaço físico do Fluminense são ocupados pelos esportes olímpicos. Ocupa muito mais espaço que o futebol. Tem que ser tratado com a importância que merece dentro da vida do clube. O Fluminense é um clube como um todo, não é só futebol, nem só esportes olímpicos, nem é só social.
A gente sabe que quem vai gerar valor para equacionar a dívida é o futebol. O esporte olímpico tem valor de imagem, é valor indireto. É um valor onde nós temos no Brasil hoje uma situação extremamente positiva. Você tem uma lei de incentivo ao esporte que é extraordinária, onde as empresas podem usar até 1% de seu imposto de renda em projetos esportivos, que pode ser direcionado a formação de atletas e equipes olímpicas. Isso pode ser perpetuado e não só atender à Olimpíada de 2016, dentro da perspectiva de alto rendimento. O mercado é muito bom hoje.
O que o Fluminense precisa? Precisa criar seus próprios projetos, trabalhar na auto-sustentação dos projetos e ter importante foco na formação dos atletas, do caráter das pessoas nas escolinhas.
Hoje o Fluminense já tem escolinhas muito boas. Claro que sempre dá para melhorar, para investir mais, estruturar melhor, trabalhar mais valores ainda na formação da pessoa.
Mas está faltando ao Fluminense uma capacidade de receitas para equipes olímpicas e para investimentos em projetos de longo prazo, que resultem na equipe adulta. Isso tem que ser trabalhado com projeto incentivado. O projeto incentivado precisa de um projeto bem feito, certidão e captação de recursos no mercado. Não é difícil. O Pinheiros trabalha assim, o valor da bolsa dos atletas olímpicos tem aumentado muito por conta dos projetos incentivados. Como o Fluminense ainda está fora deles, tem dificuldade de concorrer.
Os outros clubes usam essa receita que não é ordinária do clube, que é uma receita própria do projeto, enquanto o Fluminense tem que usar sua própria receita para fazer frente aos adversários bem estruturados como Pinheiros e Minas.
Hoje, no esporte olímpico, o Fluminense tem nichos de alta capacidade, pessoas de qualidade. Está faltando esse suporte profissional de estruturar projeto, captar no mercado e fazer o investimento. De qualquer forma, no esporte olímpico a gente já vem trabalhando com algumas áreas e até a própria Unimed vem participando da natação do Fluminense, o que mostra que a Unimed gosta do Fluminense como um todo. Ela quer que o Fluminense progrida como um todo.
Nós estamos trabalhando em alguns projetos pra trazer atletas de ponta para ajudar o Fluminense a captar novos patrocínios que são capitaneados pela imagem comercial, exatamente como no futebol. Você trás os atletas que vendem comercialmente e com eles, o investimento para ser distribuído na equipe como um todo. Com isso pode estruturar e remunerar melhor as equipes do Fluminense. E a gente já está fazendo isso. Em breve nós vamos apresentar aí equipes novas do Fluminense.
Por: Marcelo Savioli/Gabriel Cardozo
Produção e edição de áudio e vídeo: Marcello Vieira e Leandro Araújo
Coordenação: Gabriel Cardozo
Edição final: Marcello Vieira e Leandro Araújo.
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Escrevo também para www.fluminenseetc.com.br
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